Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?
Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
No começo não havia separação entre o Orum, o Céu dos orixás, e o Aiê, a Terra dos humanos. Homens e divindades iam e vinham, coabitando e dividindo vidas e aventuras. Conta-se que, quando o Orum fazia limite com o Aiê, um ser humano tocou o Orum com as mãos sujas.
O céu imaculado do Orixá fora conspurcado. O branco imaculado de Obatalá se perdera. Oxalá foi reclamar a Olorum. Olorum, Senhor do Céu, Deus Supremo, irado com a sujeira, o desperdício e a displicência dos mortais, soprou enfurecido seu sopro divino e separou para sempre o Céu da Terra.
Assim, o Orum separou-se do mundo dos homens e nenhum homem poderia ir ao Orum e retornar de lá com vida. E os orixás também não podiam vir à Terra com seus corpos. Agora havia o mundo dos homens e o dos orixás, separados.
Isoladas dos humanos habitantes do Aiê, as divindades entristeceram. Os orixás tinham saudades de suas peripécias entre os humanos e andavam tristes e amuados.
Foram queixar-se com Olodumare, que acabou consentindo que os orixás pudessem vez por outra retornar à Terra. Para isso, entretanto, teriam que tomar o corpo material de seus devotos.
Foi a condição imposta por Olodumare. Oxum, que antes gostava de vir à Terra brincar com as mulheres, dividindo com elas sua formosura e vaidade, ensinando-lhes feitiços de adorável sedução e irresistível encanto, recebeu de Olorum um novo encargo: preparar os mortais para receberem em seus corpos os orixás. Oxum fez oferendas a Exu para propiciar sua delicada missão.
De seu sucesso dependia a alegria dos seus irmãos e amigos orixás. Veio ao Aiê e juntou as mulheres à sua volta, banhou seus corpos com ervas preciosas, cortou seus cabelos, raspou suas cabeças, pintou seus corpos. Pintou suas cabeças com pintinhas brancas, como as pintas das penas da conquém, como as penas da galinha-d’angola.
Vestiu-as com belíssimos panos e fartos laços, enfeitou-as com jóias e coroas. O ori, a cabeça, ela adornou ainda com a pena ecodidé, pluma vermelha, rara e misteriosa do papagaio-da-costa. Nas mãos as fez levar abebés, espadas, cetros, e nos pulsos, dúzias de dourados indés. O colo cobriu com voltas e voltas de coloridas contas e múltiplas fieiras de búzios, cerâmicas e corais. Na cabeça pôs um cone feito de manteiga de ori, finas ervas e obi mascado, com todo condimento de que gostam os orixás.
Esse oxo atrairia o orixá ao ori da iniciada e o orixá não tinha como se enganar em seu retorno ao Aiê. Finalmente as pequenas esposas estavam feitas, estavam prontas, e estavam odara. As iaôs eram as noivas mais bonitas que a vaidade de Oxum conseguia imaginar. Estavam prontas para os deuses.
Os orixás agora tinham seus cavalos, podiam retornar com segurança ao Aiê, podiam cavalgar o corpo das devotas. Os humanos faziam oferendas aos orixás, convidando-os à Terra, aos corpos das iaôs. Então os orixás vinham e tomavam seus cavalos.
E, enquanto os homens tocavam seus tambores, vibrando os batás e agogôs, soando os xequerês e adjás, enquanto os homens cantavam e davam vivas e aplaudiam, convidando todos os humanos iniciados para a roda do xirê, os orixás dançavam e dançavam e dançavam. Os orixás podiam de novo conviver com os mortais. Os orixás estavam felizes. Na roda das feitas, no corpo das iaôs, eles dançavam e dançavam e dançavam.
Estava inventado o candomblé.
Por onde anda a moça bonita? Aquela, a moça que faz teatro. Isso... a que também dança e canta. A moça que fala francês, escreve poesias e entende de vinhos
Aquela moça de preto, cabelo curto, Fala rápida e sorriso grande. A mesma moça que encena situações, Cria ações e gera emoções.
Por onde anda a moça? Não sabe quem é? Meu Deus... Ninguém a conhece? Ela passou aqui há pouco... Seu nome? Faz parte do seu mistério. Talvez você conheça alguma personagem sua, Eu conheço, talvez
Puxa... Que conversa boa ela tem! Que risada gostosa, voz arrastada... Tão inteligente a moça, tenho medo de Me faltar o assunto
Cadê a moça? Talvez esteja em algum palco. Ou só em minha cabeça. Será que ela existe?
Creio que as teses de Huntington sobre o “choque de civilizações”, atacadas por uns e celebradas por outros aquando do seu aparecimento, mereceriam agora um estudo mais atento e menos apaixonado. Temo-nos habituado à ideia de que a cultura é uma espécie de panaceia universal e de que os intercâmbios culturais são o melhor caminho para a solução dos conflitos. Sou menos optimista. Creio que só uma manifesta e activa vontade de paz poderia abrir a porta a esse fluxo cultural multidireccional, sem ânimo de domínio de qualquer das suas partes. Essa vontade talvez exista por aí, mas não os meios para a concretizar.
Cristianismo e islamismo continuam a comportar-se como inconciliáveis irmãos inimigos incapazes de chegar ao desejado pacto de não agressão que talvez trouxesse alguma paz ao mundo. Ora, já que inventámos Deus e Alá, com os desastrosos resultados conhecidos, a solução talvez estivesse em criar um terceiro deus com poderes suficientes para obrigar os impertinentes desavindos a depor as armas e deixar a humanidade em paz. E que depois esse terceiro deus nos fizesse o favor de retirar-se do cenário onde se vem desenrolando a tragédia de um inventor, o homem, escravizado pela sua própria criação, deus. O mais provável, porém, é que isto não tenha remédio e que as civilizações continuem a chocar-se umas com as outras.
Nascido no Estado Livre da Baviera, extremo sul da Alemanha, Brecht estudou medicina e trabalhou como enfermeiro num hospital em Munique durante a Primeira Guerra Mundial. Filho de Berthold Brecht, que era diretor de uma fábrica de papel, católico, exigente e autoritário, e de Sophie Brezing (em solteira), protestante, que fez seu filho ser batizado nesta igreja.
Suas primeiras peças foram encenadas na vizinha Munique. Baal (1918/1926) e Tambores na Noite(Trommeln in der Nacht) (1918-1920)). Em sua participação no teatro Brecht conhece o diretor de teatro e cinema Erich Engel com quem veio a trabalhar até o fim da sua vida.
Depois da primeira grande guerra mudou-se para Berlim, onde o influente crítico, Herbert Ihering, chamou-lhe a atenção para a apetência do público pelo teatro moderno. Trabalha inicialmente com Erwin Piscator, famoso por suas cenas Piscator, como eram chamadas, cheias de projeções de filmes, cartazes, etc. Em Berlim, a peça Im Dickicht der Städte, protagonizada por Fritz Kortner e dirigida por Engel, tornou-se o seu primeiro sucesso.
O Nazismo afirmava-se como a força renovadora que iria reerguer o país, pretendendo reviver o Sacro Império Romano-Germânico. Mas, ao mesmo tempo, chegavam à Alemanha influências da recém formada União Soviética.
Com a eleição de Hitler, em 1933, Brecht exila-se primeiro na Áustria, depois Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Inglaterra, Rússia e finalmente nos Estados Unidos. Recebeu o Prêmio Lênin da Paz em 1954.
Seus textos e montagens o fizeram conhecido mundialmente. Brecht é um dos escritores fundamentais deste século: revolucionou a teoria e a prática da dramaturgia e da encenação, mudou completamente a função e o sentido social do teatro, usando-o como arma de conscientização e politização.
Cearense não briga... ele risca a faca! Cearense não vai em festa... ele vai farrear! Cearense não vai embora... ele pega o beco! Cearense não bate... ele mete a peia! Cearense não sai pra confusão... ele sai pros figth! Cearense não bebe um drink... ele toma uma ou melhor birita! Cearense não joga fora... ele rebola no mato! Cearense não é brigão... é arrochado! Cearense não discute... ele bota boneco ou bota queixo! Cearense não é sortudo... ele é cagado! Cearense não corre... ele faz carrera! Cearense não ri... ele se abre! Cearense não brinca... ele fresca! Cearense não toma água com açúcar... ele toma garapa! Cearense não exagera... ele alopra! Cearense não percebe... ele dá fé! Cearense não vigia as coisas... ele pastora! Cearense não vê destruição... ele vê só o distroço! Cearense não se apressa... ele avia! Cearense não observa... ele passa os pano! Cearense não agarra a mulher... ele arroxa! Cearense não bate... dá uma mãozada no pé do ouvido ! Cearense não ganha dinheiro... ele se estriba!!!!
Havia semanas que algo não saia de sua cabeça: o reencontro da turma do colégio. “Todos vão estar lá, você nem pense em não ir, até a Marília vai estar lá”. Até nada demais, se não fosse a última parte “–... até a Marília vai estar lá”. Não pensava em Marília há muito tempo. Nem se lembrava mais dela, por que diabos tinham que fazer aquela bendita reunião?
Marília e ele se conheceram no primeiro ano do ensino médio, e foram grandes amigos durante todo o restante do período escolar. Mas só amigos? Talvez nem eles pudessem nos responder com precisão. O que todos sabiam é que ambos não se afastavam nem na hora de castigo: “Saia da sala Marcelo, se não quer se comportar, então não faz sentido você estar aqui, desça e só volte depois do intervalo”, mal dito isso, sem nem ao menos olhar para a professora, lá ia a Marília acompanhando o seu companheiro – acho que era isso mesmo, companheiro, essa talvez seja a melhor palavra a ser usada.
Mas agora, dez anos se passaram. Perderam o contato um com o outro. O passar dos anos fez com que fossem esquecidas as aventuras da juventude, o companheirismo. Uma viagem de urgência de sua família, fez com que Marília se separasse dele. Iria deixar Marcelo sem nem ao menos uma despedida decente. Nem ao menos um “adeus” no aeroporto.
Uma saudade ressurgira Deus sabe de onde. Um sentimento que, para qualquer outra pessoa que se colocasse a par da história, seria mais do que amizade, seria um espécie de amor reprimido, não declarado. Mas talvez nem um nem outro percebesse esse sentimento. Ou talvez não quisessem admitir nem pra eles mesmos.
O dia do encontro chegou. Ele parecia nervoso, pra não dizer, no mínimo, curioso. Curioso em saber o que teria feito sua amiga por todos esses anos de separação. Teria terminado a faculdade? Teria casado? Tido filhos? Estaria bem financeiramente? Teria pensado nele nesses últimos anos...?
Algumas caras conhecidas começam a surgir, outras nem tanto. Quem seria aquele sujeito gordo ao lado da mulher loira? Teria estudado com ele ou com a loira? Seria muito difícil responder. Sorrisos por todos os lados, muitas das pessoas ali não queriam admitir, mas mal se conheciam na época da escola, e tentar recuperar as memórias do passado seria inútil, talvez até hipocrisia.
Quase quarenta minutos depois, a grande maioria dos presentes ali já estava íntima novamente. Relembravam apelidos do colegial, pequenas diversões nada convencionais do ponto de vista da “ordem e bons costumes”. E nada da Marília chegar. Foi quando ouviu, ao passar por duas conhecidas – mais uma vez, acho que essa é outra palavra bem escolhida – do colégio: “Viu a Marília? Ta linda...”. Foi como um baque. Não a viu, mas só em ouvir seu nome algo despertou em sua cabeça – ou no coração? Passou o olhar por todos os lados, será que não teria percebido quando ela havia chegado? Talvez fosse na hora em queteria ido aos fundos ajudar com a bebida.
Já havia quase cansado de procurar por sua amiga – seria ainda válido chamar de companheira? – Quando um leve toque no ombro o despertou. “Oi”. Era ela, ela o achara.Marília tinha mudado muito pouco em todos aqueles anos. Continuava linda, mas agora leves traços maduros foram adicionados a aquela beleza juvenil. Seria impossível, sequer se confundir. Era ela. “Oi!” Respondeu, ainda meio tímido.
Mas por que estaria tímido? Ali não era Marília, sua grande cúmplice da juventude? Quantas vezes não confessaram coisas profundas de suas vidas um ao outro... Quantas vezes já não fizeram coisas, juntos, que poucos amigos realmente fariam? Algo estava estranho. O que seria?
Um sorriso simultâneo foi lentamente surgindo. Um abraço? Um beijo no rosto? Por que a hesitação? Quantas vezes, no passado, um simples abraço não teria sido dado tão espontaneamente? Há coisas que só o tempo pode fazer, e uma dessas coisas parece ser esfriar os relacionamentos, os laços entre as pessoas, sejam de amizade ou amor.
Ele foi logo tentando despistar o constrangimento.
“E ai, como está?”
“Estou ótima, e você?”
“Estou bem. E ai, fazendo o que da vida?”
E assim a conversa foi se arrastando – outra palavra bem escolhida. A conversa não estava sendo nem um pouco natural, e conseqüentemente nada agradável. Era como conversar com qualquer outra pessoa ali. Até sua curiosidade para com a amiga havia minguado.
“Que bom.”
“Pois é”.
Entre essas palavras tão mal proferidas, longos minutos as separavam. A festa estava acabando, e nada de proveitoso tinha sido obtido. Pra falar a verdade, talvez tivesse sido melhor não ter ido à reunião. Maldita reunião! Graças a ela descobriu que sua amiga não era mais tão querida assim. Descobriu que todo afeto e confiança que ambos tinham haviam desaparecido. Maldita reunião! Só serviu para descobrir o que o tempo havia feito com sua amiga.
Eu sou um homem fechado. O mundo me tornou egoísta e mau. E minha poesia é um vicio triste, Desesperado e solitário Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada, Com teu passo leve, Com esses teus cabelos… E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita…
A súbita alegria de um espantalho inútil Aonde viessem pousar os passarinhos!
Atingir o desejado e desistir...
Quem pode saber se o que eu quero é tudo? Ou é mais alguma coisa?
Preciso de algo... agora... então...
Me dê teu cabelo... teu cheiro, teu corpo!
Me dê um pouco de ti, que já estou ficando louco!
Preciso de ti, mas só pra saciar-me... apenas isso. E não me julgue por nada disso!
Te quero por algumas horas, poucas, é verdade... mas não posso, não devo possuí-la.
Mas talvez em meus pensamentos... ai sim pode ser minha e eu não serei seu!
Não quero ser seu, e acho que nem quero você pra mim. É só emprestado.
Por algumas poucas horas, é verdade, mas mesmo assim quero.
Você já foi minha e nem sabe disso... nem nunca saberá!
E disso não precisa se envergonhar, muito menos se orgulhar...
Meus propósitos não são nada nobres, disso tenha certeza.