Fitzgerald é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX. Suas histórias, reunidas sob o título Contos da Era do Jazz, refletiam o estado de espírito da época. Foi um dos escritores da chamada "geração perdida" da literatura americana.
Francis Scott Key Fitzgerald nasceu em Saint Paul, Minnesota, nos Estados Unidos, em 24 de setembro de 1896. Oriundo de família católica irlandesa, ingressou na Universidade de Princeton, mas não chegou a se formar. Durante a primeira guerra mundial, alistou-se como voluntário. Começou a carreira literária em 1920, com This Side of Paradise (Este Lado do Paraíso), romance que lhe deu grande popularidade e lhe abriu espaço em publicações de grande prestígio, como a Scribner's e o The Saturday Evening Post. Seu segundo romance, The Beautiful and Damned (Os Belos e Malditos), foi publicado em 1922.
Com a esposa, Zelda Sayre, que introduziria um componente trágico na vida do escritor (em 1930 foi internada num hospício), Fitzgerald mudou-se para a França, onde concluiu o terceiro e o mais célebre de seus romances, The Great Gatsby (1925; O Grande Gatsby). Essa obra, uma das mais representativas do romance americano, descreve a vida em alta sociedade com uma aguda reflexão crítica. Em 1934 publicou Tender is the Night (Suave é a Noite), romance pungente que o autor considerava sua melhor obra.
Com a saúde já abalada pelo alcoolismo, Fitzgerald mudou-se então para Hollywood, onde trabalhou como roteirista cinematográfico. Em 1939 começou a escrever seu último romance, The Last Tycoon (O Último Magnata), publicado postumamente em 1941. A obra era sua última tentativa de retratar a personalidade de um grande artífice do "sonho americano".
Fonte: Wikipédia
sábado, 14 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
O Cinema de brinquedo
Encontrei essa semana na internet uma série de imagens de filmes em versão LEGO (todo mundo sabe o que é LEGO, não é preciso explicar).
Segue abaixo algumas imagens, tente adivinhar quais filmes! (Não é difícil...)
Segue abaixo algumas imagens, tente adivinhar quais filmes! (Não é difícil...)
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
E os problemas do mundo?

"As pessoas sabem que os problemas do mundo estão ai, e o quê se faz para resolvê-los?"
José Saramago
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Conto: O Navio das Sombras - Érico Veríssimo
É noite escura e o cais está deserto. Ivo ergue a gola do sobretudo. Sente muito frio, e o silêncio enorme e hostil enche-o de um vago medo. Vai viajar. Mas é estranho... Tudo parece diferente do que ele sempre imaginara. O grande transatlântico se desenha sem contornos certos contra o céu de fuligem. Não se vê um só vulto humano no cais. Adivinha-se, entretanto, na treva, a presença rígida e gelada dos guindastes.
Os minutos passam. Ivo olha. Sim, agora vê com mais clareza a silhueta do grande barco. A grande Viagem! O seu sonho vai se realizar. Ficarão para trás todas as suas angústias. É uma libertação. Devia estar alegre, sacudir os braços, correr, gritar. Mas uma opressão estranha o paralisa. Que é isto? Onde estão os outros passageiros? Onde se meteu a tripulação? É inquietante este silêncio noturno. E pavorosa esta sombra glacial que envolve tudo. Ivo quer lançar ao ar uma palavra. Pronuncia bem alto seu próprio nome. O som morre sem eco. O silêncio persiste. Então ele começa a sentir um mal-estar que nem a si mesmo consegue explicar.
Divisa aos poucos, vultos imóveis na amurada do paquete. Parecem guardas petrificados dum barco fantasma. Por que não se movem? Por que não falam? A esta hora a orquestra de bordo devia estar tocando uma marcha festiva. Carregadores gritando. Passageiros, empregados de hotel, agentes da companhia de navegação, guardas — muita gente devia andar pelo cais num formigamento sonoro. No entanto reina o mais espesso silêncio... Ivo dá dois passos e é tomado duma esquisita sensação de leveza. Caminha sem o menor esforço. E como se não encontrasse nenhuma resistência no ar, como se suas pernas fossem de algodão.
Mete a mão no bolso. Sim, ali está a sua passagem. Fica mais tranqüilo e encorajado. Pode embarcar. Deve embarcar... Seria decepcionante perder o navio...
Dirige-se para a prancha. Hesita um instante antes de partir, porque a seus ouvidos soa, muito fraca, muito abafada, uma voz amiga.
— Ivo, Ivo querido, não me abandones! Inexplicável. De onde veio a voz? Volta a cabeça para os lados, procurando. Só encontra a escuridão fria e inimiga, O navio apita. Um som soturno, grave e prolongado, enche a grande noite. E uma queixa, quase um choro e, apesar disso, tem um certo tom de ameaça. Nesse apito rouco Ivo sente o pavor do oceano desconhecido na noite negra, a angústia dos navios perdidos a pedirem socorro, a aflição dos náufragos, o horror das profundezas do mar. O apito uivante e áspero parece feito dos gritos de todos os afogados, de todos os mares.
Ivo sente-se desfalecer de medo.
— Meu Ivo, por que foi? Por que foi?
Outra vez a voz. Ivo estremece. De onde vem aquela voz? Na amurada, os
vultos continuam imóveis. Nenhum deles podia ter falado assim com aquela
ternura longínqua. Porque eles devem ter uma voz cavernosa de pedra.
Parado ao pé da prancha, Ivo olha para o alto. Vê um homem na extremidade superior da escada. Está de pernas abertas, braços cruzados, olhando para baixo. Ivo não lhe pode distinguir £s feições. Mas é curioso, ele sente a força de dois olhos magnéticos que o fitam. E aquele olhar é um chamado, uma ordem.
Começa a subir. Lembra-se de um trecho de antologia da sua infância. André Chenier subindo as escadas do cadafalso. Sim, ele sente que vai ser guilhotinado. Lá em cima está o carrasco. Ou será apenas o capitão? Ivo sobe. Um, dois, três, quatro degraus ... O frio aumenta, Ivo começa a tiritar. Cinco, seis, sete. Sente uma fraqueza, uma tontura. Subiu apenas sete degraus, mas agora o cais está tão longe de seus pés, que ele tem a sensação de se encontrar no alto duma torre altíssima. O vento sopra gelado como a face dum morto. Mas por que lhe vêm com tanta insistência esses pensamentos macabros? Esta não é então a Viagem, a sua desejada aventura transoceânica? Deve então alegrar-se, cantar . . . Procura assobiar uma ária alegre. Mas o vento lhe impõe silêncio. Ivo sobe sempre . . . Quando senta o pé no navio, não vê mais o capitão. Volta os olhos e só enxerga a noite, a grande noite, a densa noite.
Por que não acendem as luzes deste navio? Senhores, as luzes! Outros vultos
passam. Mulheres, homens, crianças. É aflitivo. Ivo não lhes pode ver os rostos. E o silêncio apavorante!...
Ivo se aproxima dum homem que se acha encostado à amurada.
— Por favor, meu amigo, pode me dizer se este vapor é o...
Cala-se. É assustador. Ele não sabe o nome do barco em que entrou. Como foi isso? Não se trata então duma viagem, da "sua" desejada viagem, por tanto tempo planejada e acariciada? Por que tudo agora está tão esfumado e confuso, como se sobre sua memória tivesse caído um véu? Ivo começa a suar. O suor lhe escorre pelo rosto em bagas frias.
- Pode me dizer onde fica o bar?
Sim, precisa tomar uma bebida qualquer. Deve ser o frio que o deixa assim tão sem memória, tão fraco e trêmulo.
— Cavalheiro, pode me dizer onde fica o sol?
O sol? Mas ele não queria perguntar onde ficava o sol. Jurava que ia
perguntar onde ficava o bar.
— Por favor, cavalheiro...
O vulto se move sem o menor ruído e some-se na sombra.
Ivo treme dos pés à cabeça. "Preciso encontrar o meu camarote" diz para si mesmo — "preciso descobrir a minha bagagem" — pensa, numa crescente aflição. — "Deve existir alguém a bordo que possa me explicar. Talvez um doutor... Sim. Estou doente..."
E agora ele tem consciência duma dor, não aguda mas continuada e martelante, bem no lado esquerdo do peito. Leva a mão ao coração. Retira-a úmida. Será sangue ? Sim, deve ser...
Sai a correr apavorado. Um médico! Um médico! Estou ferido, vou morrer,
socorro! Mas suas pernas, de tão leves, agora se vergam. Ivo pára. Ajoelha-se e grita ainda: Um médico! Mas não consegue ouvir a própria voz. Ergue-se, agoniado. Homens, mulheres e poucas crianças continuam a passar. São ainda sombras sem vozes nem gestos.
Ivo procura orientar-se na escuridão. Parece-lhe agora enxergar contornos mais nítidos. Sim. Ali está uma porta. Um corredor. Se ele entrar no corredor talvez ache o seu camarote. Tem agora vagamente a lembrança dum número. 27... 27... Recorda-se de tê-lo visto impresso em algarismos negros sobre um quadro branco. 27... Onde?
De repente tem a impressão de que na memória se lhe abre uma clareira por onde ele enxerga o passado. Mas é apenas um relâmpago. De novo cai a névoa. Já não lhe dói mais o peito. Tudo deve ter sido ilusão ... ele não está ferido. As sombras passam. A bruma que vem do mar invade o navio. Onde estará o capitão? O frio e o silêncio persistem. O barco misterioso torna a soltar um gemido rouco e prolongado. Mas - é incrível, incompreensível, endoidecedor — nem o apito consegue quebrar o silêncio.
Ivo caminha sem destino. Não ouve o ruído dos próprios passos. Não tropeça
em nada. Aproxima-se da amurada e olha o mar. Só vê a escuridão velada duma bruma de cor doentia.
Um homem se aproxima dele. Ivo olha-lhe o rosto.. Já se lhe distinguem alguns traços. Decerto o hábito da escuridão. Céus, mas que rosto pálido! Parece a cara dum cadáver. A pele está ressequida e tem um tom esverdeado. Os olhos, parados e sem brilho. Os dentes arreganhados...
Agora aparecem outras faces. Uma criança sorrindo um sorriso horrendo. Uma
mulher com os olhos furados escorrendo sangue. Um velho com a boca queimada de ácido. Ivo solta um grito... Mas o silêncio continua. Onde estarei? — pensa ele. — Onde estarei? Faz um esforço dolorido para se lembrar.
Quem sou eu? Como foi que vim parar aqui? Onde estão os meus amigos, as pessoas que eu via todos os dias?
O frio aumenta. Ivo sente-se desfalecer. Tem a impressão de estar boiando
nas ondas dum mar gelado, como um náufrago; como um iceberg...
Camarote 27! — diz Ivo, - 27... 27... — Seus lábios se movem, mas nenhum som perturba o silêncio do grande barco e da enorme noite.
De repente uma onda morna lhe invade o corpo. Pela proa do navio começa a
nascer uma luz, pálida a princípio, mas a pouco e pouco se fazendo mais viva e dourada. Os olhos de Ivo se agrandam. Aquela luminosidade vai ser a explicação de tudo, a volta da memória... Sim, ele vai descer pela prancha e ganhar o cais. O cais também é negro e silencioso. Mas não há nada como a terra firme. Ele não quer viajar neste vapor tenebroso cujos passageiros são fantasmas. O mar desconhecido é um pavor na noite. Oh Deus! - pensa Ivo - como foi que eu cheguei a desejar esta viagem!? Que louco! Que louco! A luz cresce. O calor aumenta. A voz amiga se ouve mais forte: "Ivo, meu querido, fica comigo!" Sim, ele quer ficar. E preciso fugir do capitão do barco noturno. Ivo dá dois passos para a luz.
Ajoelhada ao pé da cama a moça aperta e beija a mão pálida do rapaz.
— Ivo, não quero que morras, não quero. Por que foi que fizeste isso? Por que foi?
Com a seringa de injeção numa das mãos, o médico contempla o rosto pálido do suicida. Pobre diabo! Perdeu tanto sangue... O corpo está quase frio.
A um canto do quarto, a dona da casa, torcendo o avental, olha muito assustada para a cama. "Por causa do que me devia, ele não precisava fazer isso. Eu podia esperar. Não tinha importância. Deus me perdoe. Se eu soubesse, não tinha vindo hoje trazer a conta. Logo hoje, Nossa Senhora!"
Ao pé da janela, o porteiro da casa conversa com um agente de polícia.
— De onde era ele?
— Do interior.
— Tinha família?
O porteiro encolhe os ombros.
— Era um moço muito calmo, muito delicado. Andava sem emprego. Eu dizia para ele que tivesse paciência. Mas qual! Não agüentou... Há gente nervosa.
Falam já de Ivo como quem fala dum morto. O médico aproxima-se do grupo.
— Fiz uma tentativa desesperada. Injetei-lhe adrenalina no coração. — Sacode a cabeça. — Não tenho muita esperança. Enfim... acontecem milagres...
Ao ouvir a palavra milagre a velha começa a rezar.
De repente a moça se ergue, como que impelida por uma mola.
— Doutor! Ele está se mexendo... venha! Venha! Os três homens se aproximam da cama. O rosto de Ivo se move, seus olhos se entreabrem. Há um breve instante de aflitiva esperança. Ivo como que se baloiça, indeciso, por sobre as tênues fronteiras que separam a vida da morte.Mas parece haver do outro lado um chamado mais forte. O corpo se imobiliza.
O doutor inclina-se e ausculta-lhe o coração. Olha para a moça e diz, baixinho:
— Sinto muito. Mas não há mais nada a fazer. A dona da casa desata a chorar. Com o rosto contraído numa expressão mais de estupefação que dedor, a rapariga olha do médico para o morto, do morto para a folhinha da parede, onde o número 27 em letras negras se destaca sobre o quadrado branco. Iam contratar casamento, hoje, hoje...
O transatlântico vai partir. O transatlântico apita. É um gemido rouco, longo, doloroso, desesperado, irremediável. Debruçado à amurada, Ivo olha o vácuo. Agora é uma sombra resignada entre as outras sombras. O vento do grande mar desconhecido varre o barco dos suicidas. E todos eles ali vão em
silêncio, enquanto na ponte o fantástico Capitão olha com seus olhos vazios a noite insondável.
Texto extraído do livro "Contos" (série paradidática), Ed. Globo - Porto Alegre - 1978, pág. 13.
Os minutos passam. Ivo olha. Sim, agora vê com mais clareza a silhueta do grande barco. A grande Viagem! O seu sonho vai se realizar. Ficarão para trás todas as suas angústias. É uma libertação. Devia estar alegre, sacudir os braços, correr, gritar. Mas uma opressão estranha o paralisa. Que é isto? Onde estão os outros passageiros? Onde se meteu a tripulação? É inquietante este silêncio noturno. E pavorosa esta sombra glacial que envolve tudo. Ivo quer lançar ao ar uma palavra. Pronuncia bem alto seu próprio nome. O som morre sem eco. O silêncio persiste. Então ele começa a sentir um mal-estar que nem a si mesmo consegue explicar.
Divisa aos poucos, vultos imóveis na amurada do paquete. Parecem guardas petrificados dum barco fantasma. Por que não se movem? Por que não falam? A esta hora a orquestra de bordo devia estar tocando uma marcha festiva. Carregadores gritando. Passageiros, empregados de hotel, agentes da companhia de navegação, guardas — muita gente devia andar pelo cais num formigamento sonoro. No entanto reina o mais espesso silêncio... Ivo dá dois passos e é tomado duma esquisita sensação de leveza. Caminha sem o menor esforço. E como se não encontrasse nenhuma resistência no ar, como se suas pernas fossem de algodão.
Mete a mão no bolso. Sim, ali está a sua passagem. Fica mais tranqüilo e encorajado. Pode embarcar. Deve embarcar... Seria decepcionante perder o navio...
Dirige-se para a prancha. Hesita um instante antes de partir, porque a seus ouvidos soa, muito fraca, muito abafada, uma voz amiga.
— Ivo, Ivo querido, não me abandones! Inexplicável. De onde veio a voz? Volta a cabeça para os lados, procurando. Só encontra a escuridão fria e inimiga, O navio apita. Um som soturno, grave e prolongado, enche a grande noite. E uma queixa, quase um choro e, apesar disso, tem um certo tom de ameaça. Nesse apito rouco Ivo sente o pavor do oceano desconhecido na noite negra, a angústia dos navios perdidos a pedirem socorro, a aflição dos náufragos, o horror das profundezas do mar. O apito uivante e áspero parece feito dos gritos de todos os afogados, de todos os mares.
Ivo sente-se desfalecer de medo.
— Meu Ivo, por que foi? Por que foi?
Outra vez a voz. Ivo estremece. De onde vem aquela voz? Na amurada, os
vultos continuam imóveis. Nenhum deles podia ter falado assim com aquela
ternura longínqua. Porque eles devem ter uma voz cavernosa de pedra.
Parado ao pé da prancha, Ivo olha para o alto. Vê um homem na extremidade superior da escada. Está de pernas abertas, braços cruzados, olhando para baixo. Ivo não lhe pode distinguir £s feições. Mas é curioso, ele sente a força de dois olhos magnéticos que o fitam. E aquele olhar é um chamado, uma ordem.
Começa a subir. Lembra-se de um trecho de antologia da sua infância. André Chenier subindo as escadas do cadafalso. Sim, ele sente que vai ser guilhotinado. Lá em cima está o carrasco. Ou será apenas o capitão? Ivo sobe. Um, dois, três, quatro degraus ... O frio aumenta, Ivo começa a tiritar. Cinco, seis, sete. Sente uma fraqueza, uma tontura. Subiu apenas sete degraus, mas agora o cais está tão longe de seus pés, que ele tem a sensação de se encontrar no alto duma torre altíssima. O vento sopra gelado como a face dum morto. Mas por que lhe vêm com tanta insistência esses pensamentos macabros? Esta não é então a Viagem, a sua desejada aventura transoceânica? Deve então alegrar-se, cantar . . . Procura assobiar uma ária alegre. Mas o vento lhe impõe silêncio. Ivo sobe sempre . . . Quando senta o pé no navio, não vê mais o capitão. Volta os olhos e só enxerga a noite, a grande noite, a densa noite.
Por que não acendem as luzes deste navio? Senhores, as luzes! Outros vultos
passam. Mulheres, homens, crianças. É aflitivo. Ivo não lhes pode ver os rostos. E o silêncio apavorante!...
Ivo se aproxima dum homem que se acha encostado à amurada.
— Por favor, meu amigo, pode me dizer se este vapor é o...
Cala-se. É assustador. Ele não sabe o nome do barco em que entrou. Como foi isso? Não se trata então duma viagem, da "sua" desejada viagem, por tanto tempo planejada e acariciada? Por que tudo agora está tão esfumado e confuso, como se sobre sua memória tivesse caído um véu? Ivo começa a suar. O suor lhe escorre pelo rosto em bagas frias.
- Pode me dizer onde fica o bar?
Sim, precisa tomar uma bebida qualquer. Deve ser o frio que o deixa assim tão sem memória, tão fraco e trêmulo.
— Cavalheiro, pode me dizer onde fica o sol?
O sol? Mas ele não queria perguntar onde ficava o sol. Jurava que ia
perguntar onde ficava o bar.
— Por favor, cavalheiro...
O vulto se move sem o menor ruído e some-se na sombra.
Ivo treme dos pés à cabeça. "Preciso encontrar o meu camarote" diz para si mesmo — "preciso descobrir a minha bagagem" — pensa, numa crescente aflição. — "Deve existir alguém a bordo que possa me explicar. Talvez um doutor... Sim. Estou doente..."
E agora ele tem consciência duma dor, não aguda mas continuada e martelante, bem no lado esquerdo do peito. Leva a mão ao coração. Retira-a úmida. Será sangue ? Sim, deve ser...
Sai a correr apavorado. Um médico! Um médico! Estou ferido, vou morrer,
socorro! Mas suas pernas, de tão leves, agora se vergam. Ivo pára. Ajoelha-se e grita ainda: Um médico! Mas não consegue ouvir a própria voz. Ergue-se, agoniado. Homens, mulheres e poucas crianças continuam a passar. São ainda sombras sem vozes nem gestos.
Ivo procura orientar-se na escuridão. Parece-lhe agora enxergar contornos mais nítidos. Sim. Ali está uma porta. Um corredor. Se ele entrar no corredor talvez ache o seu camarote. Tem agora vagamente a lembrança dum número. 27... 27... Recorda-se de tê-lo visto impresso em algarismos negros sobre um quadro branco. 27... Onde?
De repente tem a impressão de que na memória se lhe abre uma clareira por onde ele enxerga o passado. Mas é apenas um relâmpago. De novo cai a névoa. Já não lhe dói mais o peito. Tudo deve ter sido ilusão ... ele não está ferido. As sombras passam. A bruma que vem do mar invade o navio. Onde estará o capitão? O frio e o silêncio persistem. O barco misterioso torna a soltar um gemido rouco e prolongado. Mas - é incrível, incompreensível, endoidecedor — nem o apito consegue quebrar o silêncio.
Ivo caminha sem destino. Não ouve o ruído dos próprios passos. Não tropeça
em nada. Aproxima-se da amurada e olha o mar. Só vê a escuridão velada duma bruma de cor doentia.
Um homem se aproxima dele. Ivo olha-lhe o rosto.. Já se lhe distinguem alguns traços. Decerto o hábito da escuridão. Céus, mas que rosto pálido! Parece a cara dum cadáver. A pele está ressequida e tem um tom esverdeado. Os olhos, parados e sem brilho. Os dentes arreganhados...
Agora aparecem outras faces. Uma criança sorrindo um sorriso horrendo. Uma
mulher com os olhos furados escorrendo sangue. Um velho com a boca queimada de ácido. Ivo solta um grito... Mas o silêncio continua. Onde estarei? — pensa ele. — Onde estarei? Faz um esforço dolorido para se lembrar.
Quem sou eu? Como foi que vim parar aqui? Onde estão os meus amigos, as pessoas que eu via todos os dias?
O frio aumenta. Ivo sente-se desfalecer. Tem a impressão de estar boiando
nas ondas dum mar gelado, como um náufrago; como um iceberg...
Camarote 27! — diz Ivo, - 27... 27... — Seus lábios se movem, mas nenhum som perturba o silêncio do grande barco e da enorme noite.
De repente uma onda morna lhe invade o corpo. Pela proa do navio começa a
nascer uma luz, pálida a princípio, mas a pouco e pouco se fazendo mais viva e dourada. Os olhos de Ivo se agrandam. Aquela luminosidade vai ser a explicação de tudo, a volta da memória... Sim, ele vai descer pela prancha e ganhar o cais. O cais também é negro e silencioso. Mas não há nada como a terra firme. Ele não quer viajar neste vapor tenebroso cujos passageiros são fantasmas. O mar desconhecido é um pavor na noite. Oh Deus! - pensa Ivo - como foi que eu cheguei a desejar esta viagem!? Que louco! Que louco! A luz cresce. O calor aumenta. A voz amiga se ouve mais forte: "Ivo, meu querido, fica comigo!" Sim, ele quer ficar. E preciso fugir do capitão do barco noturno. Ivo dá dois passos para a luz.
Ajoelhada ao pé da cama a moça aperta e beija a mão pálida do rapaz.
— Ivo, não quero que morras, não quero. Por que foi que fizeste isso? Por que foi?
Com a seringa de injeção numa das mãos, o médico contempla o rosto pálido do suicida. Pobre diabo! Perdeu tanto sangue... O corpo está quase frio.
A um canto do quarto, a dona da casa, torcendo o avental, olha muito assustada para a cama. "Por causa do que me devia, ele não precisava fazer isso. Eu podia esperar. Não tinha importância. Deus me perdoe. Se eu soubesse, não tinha vindo hoje trazer a conta. Logo hoje, Nossa Senhora!"
Ao pé da janela, o porteiro da casa conversa com um agente de polícia.
— De onde era ele?
— Do interior.
— Tinha família?
O porteiro encolhe os ombros.
— Era um moço muito calmo, muito delicado. Andava sem emprego. Eu dizia para ele que tivesse paciência. Mas qual! Não agüentou... Há gente nervosa.
Falam já de Ivo como quem fala dum morto. O médico aproxima-se do grupo.
— Fiz uma tentativa desesperada. Injetei-lhe adrenalina no coração. — Sacode a cabeça. — Não tenho muita esperança. Enfim... acontecem milagres...
Ao ouvir a palavra milagre a velha começa a rezar.
De repente a moça se ergue, como que impelida por uma mola.
— Doutor! Ele está se mexendo... venha! Venha! Os três homens se aproximam da cama. O rosto de Ivo se move, seus olhos se entreabrem. Há um breve instante de aflitiva esperança. Ivo como que se baloiça, indeciso, por sobre as tênues fronteiras que separam a vida da morte.Mas parece haver do outro lado um chamado mais forte. O corpo se imobiliza.
O doutor inclina-se e ausculta-lhe o coração. Olha para a moça e diz, baixinho:
— Sinto muito. Mas não há mais nada a fazer. A dona da casa desata a chorar. Com o rosto contraído numa expressão mais de estupefação que dedor, a rapariga olha do médico para o morto, do morto para a folhinha da parede, onde o número 27 em letras negras se destaca sobre o quadrado branco. Iam contratar casamento, hoje, hoje...
O transatlântico vai partir. O transatlântico apita. É um gemido rouco, longo, doloroso, desesperado, irremediável. Debruçado à amurada, Ivo olha o vácuo. Agora é uma sombra resignada entre as outras sombras. O vento do grande mar desconhecido varre o barco dos suicidas. E todos eles ali vão em
silêncio, enquanto na ponte o fantástico Capitão olha com seus olhos vazios a noite insondável.
Texto extraído do livro "Contos" (série paradidática), Ed. Globo - Porto Alegre - 1978, pág. 13.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
LAS VEGAS - Mario Puzo
Se existe um bom livro a se recomendar às pessoas que gostam de jogar (e postar, é claro) esse livro é Las Vegas, de Mario Puzo.
Neste livro (o meu terceiro a ser lido do autor) Mario Puzo mostra (se é que havia alguma dúvida ainda) todo o seu amor pelo jogo, mais precisamente Vegas, um verdadeiro oásis artificial construído no meio do deserto de Nevada (EUA). Bastidores dos cassinos e hotéis; terminologia oficial (própria) dos diversos jogos e jargões usados por aqueles não-tão-oficiais; história dos jogos de azar; história de como e por que um cidade dos prazeres seria construída no meio de um deserto; os tipos de jogos e como ser e não ser enganado em cada um; curiosidades, etc. Tudo isso e muito mais!
Eu confesso que fiquei muito surpreso ao ler o livro. Adiei o máximo possível a leitura, não sei ainda por qual motivo (por procrastinação ou mero preconceito pelo tema, sabe-se lá), mas a verdade é que vale a pena lê-lo (e depois, daqui a alguns poucos anos, relê-lo). O livro é bem fino, cerca de 150 páginas, é quase um almanaque, por assim dizer. O tipo de livro para se ler em um final de semana.
Sei que hoje Las Vegas não é exatamente não retrata o livro (afinal, escrito há 40 anos) e que muita coisa deve ter mudado. Mas mesmo assim dá vontade de ir lá, ao menos para ver como é. Nunca fui viciado em jogos (exceto alguns de video game) e muito menos em apostar, isso sempre odiei., mas temo que uma cidade como aquela onde tudo "conspira" para que você jogue (e aposte) possa influenciar a cabeça de um turista recém chegado.
Não sou especialista, longe disso, mas estou convencido de que alguns livros realmente nos fazem lembrar do nosso passado. Faz tanto tempo que não jogo baralho que nem mesmo as regras da simples "batidinha" me fogem da cabeça - isso é triste. Na obra em que trabalho tem alguns operários que jogam na hora do almoço, todos apostando. Alguns mesmo já vieram me pedir dinheiro emprestado depois de perder todo o dinheiro que tinham para a semana, eu emprestei e... eles apostaram, e perderam, tudo. - constatei depois no livro que isso é a pior coisa a se fazer. Uma coisa é a pessoa perder tudo, outra bem diferente é além disso sair pedindo dinheiro emprestado para continuar jogando, esperando uma maré de sorte que talvez não venha.
Lembre-se que: "... em uma maré de sorte você dificilmente irá recuperar o que perdeu em uma maré de azar".
domingo, 11 de dezembro de 2011
Mundos no mundo
Achei legal... E lembrando que: SE um dia eu for preso quero levar para a minha cela todos os meus livros!
domingo, 4 de dezembro de 2011
Posters de filmes - Falta de criatividade ou mera coincidência?
Foi-se o tempo em que um poster de cinema realmente atraía a atenção do público pela originalidade (ao menos a maioria do público, já que para alguns "não-cinéfilos" qualquer coisa serve). Eu mesmo não tinha parado pra pensar nisso, mas "viajando" ai pela internet eu descobri que existe uma semelhança (repetição) considerável nos modelos de posters (aqueles cartazes que ficam na frente dos cinemas). Trata-se de uma iconografia (palavrinha legan, hein?) nada nova - gasta, mas que fazem sucesso ao grande púlico. Gosto de filmes, de cinema e aprendi com um primo meu (há muito tempo) a prestar atenção nas trilhas sonoras. Mas a relação existente entre esses cartazes... nunca tinha prestado atenção... não até hoje!
Que coisa, não?
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Morre o escritor Érico Veríssimo - Há 36 anos
"No dia 28 de novembro de 1975, morria o escritor, professor e tradutor Érico Veríssimo, em Porto Alegre (RS). Considerado um dos escritores brasileiros mais populares do século XX, com obras traduzidas para mais de 15 idiomas, ele nasceu em Cruz Alta (RS), no dia 17 de dezembro de 1905. Quando faleceu, Érico Veríssimo deixou inacabada a segunda parte de seu livro de memórias “Solo de Clarineta”. Sua obra-prima, contudo, que lhe deixou famoso no Brasil e no exterior foi a trilogia “O tempo e o vento”. Dividida em “O Continente” (1949), “O Retrato” (1951) e “O Arquipélago” (1962), os romances contam a história do Rio Grande do Sul, de 1680 até o fim do Estado Novo em 1945, por meio das famílias Terra e Cambará. A obra virou novela, minissérie e filme. Seu primeiro grande sucesso foi “Olhai os lírios do campo”, lançado em 1938. O livro foi adaptado para o cinema, “Mirad los lirios” (1947), uma produção argentina.
Outra obra de grande sucesso foi “Incidente em Antares” (1971), que liderou a lista de livros nacionais mais vendidos durante semanas. Este foi precedido por “Senhor embaixador” (1965), que ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria romance. Em 1973, publicou o primeiro volume de “Solo de Clarineta”, sua segunda e ampliada autobiografia. Contudo, quando estava escrevendo o segundo volume, Érico Veríssimo foi vítima de um enfarte.
Durante sua vida, Érico Veríssimo também escreveu contos, livros infanto-juvenis, ensaios e narrativas de viagens. Neste último gênero, publicou, por exemplo, “A volta do gato preto” (1946), sobre sua vida nos Estados Unidos. Entre suas traduções, ele transcreveu do inglês para o português vários livros, entre eles Contraponto (Point Counter Point), de Aldous Huxley (1934), e Ratos e homens (Of Mice and Men), de John Steinbeck (1940)."
Outra obra de grande sucesso foi “Incidente em Antares” (1971), que liderou a lista de livros nacionais mais vendidos durante semanas. Este foi precedido por “Senhor embaixador” (1965), que ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria romance. Em 1973, publicou o primeiro volume de “Solo de Clarineta”, sua segunda e ampliada autobiografia. Contudo, quando estava escrevendo o segundo volume, Érico Veríssimo foi vítima de um enfarte.
Durante sua vida, Érico Veríssimo também escreveu contos, livros infanto-juvenis, ensaios e narrativas de viagens. Neste último gênero, publicou, por exemplo, “A volta do gato preto” (1946), sobre sua vida nos Estados Unidos. Entre suas traduções, ele transcreveu do inglês para o português vários livros, entre eles Contraponto (Point Counter Point), de Aldous Huxley (1934), e Ratos e homens (Of Mice and Men), de John Steinbeck (1940)."
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Kubrick e os bastidores
Essa foto foi tirada durante as filmagens de "O Iluminado" (1980). Em primeiro plano temos Jack Nicholson, desfocado e em segundo plano um operador de câmera fazendo alguns ajustes (muito provavelmente durante uma pausa das filmagens.
Kubrick, ao tirar essa foto ao lado da filha, estaria lembrando do início de sua carreira? Vale lembrar que o diretor começou como fotógrafo profissional.
domingo, 13 de novembro de 2011
Demasiada miséria
"[...] hay demasiada miseria, demasiada tragedia en el mundo, demasiada desesperación como para que nosotros estemos ocupados con nuestras pequeñas cosas."
Filme/Documentário José e Pilar
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
sábado, 15 de outubro de 2011
QUESTIONÁRIO LITERÁRIO
Enquanto vadiava pela internet acabei encontrando um quiz bastante interessante sobre literatura. O questionário constava de 30 perguntas sobre gostos literários. Resolvi fazer um (as 15 melhores pergutas) e postar no PSICODELICUS. Segue abaixo as minhas respostas:
1- UM LIVRO QUE TE SURPREENDEU?
2- UM LIVRO QUE TE FEZ CHORAR?
3- O MELHOR LIVRO QUE VOCÊ JÁ LEU?
Não me atrevo a nomear... gostei de tantos!
4- UM LIVRO QUE VOCÊ TENHA LIDO MAIS DE UMA VEZ
5- O 1° LIVRO QUE VOCÊ LEMBRA DE TER LIDO
6- UM LIVRO QUE VOCÊ ACHOU DIFÍCIL DE LER
7- UM LIVRO QUE TODOS DEVERIAM LER, AO MENOS UMA VEZ
8- UM LIVRO QUE VOCÊ NÃO TERMINOU DE LER
9- UM LIVRO QUE TE FAZ LEMBRAR ALGUÉM / ALGUMA COISA
10- QUAL LIVRO VOCÊ GOSTARIA DE VER EM FILME?
11- DOS LIVROS QUE VOCÊ JÁ LEU, QUAL O SEU PERSONAGEM FAVORITO?
12- CITE 5 LIVROS DA TUA PILHA DE "EU VOU LER"
1) Norwegian Wood - Haruki Murakami
2) Uma história da Leitura - Alberto Manguel
3) Cem anos de Solidão - Gabriel García Marquez
4) Por quem os Sinos Dobram - Ernest Hemingway
5) O Conde de Montecristo - Alexandre Dumas
13- UM LIVRO QUE GOSTARIA DE TER ESCRITO
14- UM LIVRO QUE GOSTARIA DE LER MAS NUNCA LEU?
15- RECOMENDE UM AUTOR PARA UM LEITOR INICIANTE
![]() |
| Ernest Hemingway |
Bem... acho que é isso! Apesar de parecer simples, não foi tão fácil assim responder esse questionário. Talvez seja mais difícil ainda explicar as respostas.
Assinar:
Postagens (Atom)



































